Como é o processo de diagnóstico de uma criança neuroatípica?
Na visão de uma mãe recém chegada na neurodiversidade
Como é o processo de diagnóstico de uma criança neuroatípica?
Ao contrário de outras condições de saúde, os transtornos do neurodesenvolvimento não são identificados por exames laboratoriais ou de imagem. Ainda que existam pesquisas promissoras nesse campo, hoje o diagnóstico é um processo complexo, baseado principalmente na observação clínica, na escuta atenta e em avaliações especializadas.
Por isso, muitas mães vivem anos sem suspeitar da neurodiversidade de seus filhos. Outras, percebem sinais em poucos meses. No nosso caso, foram cinco anos até o primeiro passo, e mais dois anos para fechar o diagnóstico. Compartilho abaixo como esse caminho costuma se desenrolar — e como foi para nós:
1. O despertar da suspeita
Tudo começa com aquela sensação de que "tem algo diferente". Muitas vezes, nos pegamos tentando silenciar essa intuição: “deve ser coisa da minha cabeça”. Mas os sinais persistem — desvio do olhar, demora em responder ao ser chamado, atrasos nos marcos do desenvolvimento, dificuldades na interação social. Em alguns casos, há também incômodos sensoriais com sons, luzes, texturas.
Ao dividir essas percepções com familiares e amigos, frequentemente recebemos respostas que minimizam a situação, como: “cada criança tem seu tempo” ou “isso é só manha”. Mas nada disso ajuda — nem a nós, nem à criança que precisa de suporte.
2. A importância de um pediatra atento
Um pediatra de confiança é essencial nesse processo. Ele acompanha o desenvolvimento infantil de forma contínua, avaliando marcos, escutando as preocupações da família e identificando sinais de alerta.
No nosso caso, começamos o acompanhamento com psicóloga e fonoaudióloga por recomendação da pediatra e da odontopediatra, por conta de um bruxismo intenso — algo que, ali, era o único indício clínico. Mas, ao longo de um ano de acompanhamento, ficou claro que havia algo mais. E as suspeitas passaram a fazer sentido.
3. Encaminhamento para especialistas
É o pediatra quem faz o encaminhamento para um neuropediatra ou psiquiatra infantil, especializados em transtornos do neurodesenvolvimento.
Mesmo sem grandes discrepâncias nos marcos de desenvolvimento ou nos relatórios escolares, os relatórios da psicóloga e da fono reforçavam o que eu vinha percebendo. A pediatra acolheu minhas dúvidas e, juntas, seguimos para investigar com mais profundidade.
Na primeira consulta com a neuropediatra, já houve uma escuta muito cuidadosa. Mas, como costumo dizer, no caso do meu filho, o diagnóstico mora nos detalhes. Não seria possível fechar nada com segurança logo de início. E isso é absolutamente normal.
4. Avaliação neuropsicológica
O passo seguinte é a avaliação neuropsicológica. Trata-se de uma investigação profunda, feita por um profissional habilitado, com o uso de testes padronizados, escalas de desenvolvimento e entrevistas com os pais.
Foram quatro sessões com nosso filho e outras só conosco. Ao final, o diagnóstico ficou evidente. Aqueles cinco anos de percepção sutil, muitas vezes desacreditada, ganharam nome, forma e sentido.
5. Fechamento do diagnóstico
Somente o neuropediatra ou psiquiatra infantil pode emitir o laudo diagnóstico. Com os resultados da avaliação neuropsicológica em mãos, voltamos à neuropediatra, que então fechou o diagnóstico: TEA (Transtorno do Espectro Autista), nível 1 de suporte. Também foram identificados sinais de TDAH.
A consulta de fechamento foi longa, cheia de explicações e acolhimento. Saímos de lá com o diagnóstico — e, mais importante, com um plano de ação. Porque é com suporte que nosso filho vai crescer e se tornar um adulto funcional, feliz e adaptado ao seu jeito de ser.
6. O luto pelo filho idealizado
Sim, existe um luto. Para mim, ele começou lá atrás, na primeira anamnese com a psicóloga. Não é um luto por uma morte física, mas pela ideia idealizada de um futuro “normal” que imaginamos para nossos filhos.
Pode parecer estranho falar de luto quando não se há um ser vivo morto. Mas a psicologia explica que a vivência do luto vai muito além da morte física de um ser. A morte de uma expectativa, o fechamento de um ciclo, tudo isso pode gerar um luto.
E quando se percebe que o seu filho não atende aos padrões de normalidade de uma sociedade tão desigual e questionável, o luto se instala. Surge um turbilhão de perguntas: Como será o futuro dele? A sociedade vai acolhê-lo? Eu dou conta?
E tudo bem ter essas dúvidas. O importante é não ficar sozinha. Buscar uma rede de apoio, informação e envolvimento nas terapias é o que nos fortalece — dia após dia.
E aí, como foi (ou tem sido) esse processo por aí? Compartilhar pode ser o primeiro passo para acolher outras famílias. 💛

